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Encontro Pan-Africano para Construção de Futuros Digitais Comunitários

· 5 min para ler
Nádia Coelho Pontes
engenheira eletricista

Nos dias 15 a 18 de maio de 2026, participamos do Encontro Pan-Africano para Construção de Futuros Digitais Comunitários, na Manor House Agricultural Training Centre, Kitale, Kenya.

Manor House Agricultural Training Centre

Antes de falar sobre o evento, comentamos sobre a Manor House Agricultural Training Center de Kitale, que, desde 2014, trabalham em processos formativos relacionados à tecnologia no campo. Eles estão situados na área rural dessa cidade, e mantêm diferentes espaços com agrofloresta, horta, produção de ovos e leite. Aplicam diferentes métodos, com o objetivo de fazer experimentações e ensinar pessoas interessadas na produção agropecuária. A alimentação oferecida durante o evento foi majoritariamente produzida lá.

Manor House Agricultural Training Centre - Agrofloresta

Descrição

Esse evento foi promovido pelo IDEMS em parceria com o INNODEMS, e foi um dos projetos financiados pela primeira rodada da comunidade Float.
O objetivo era reunir agentes do continente africano, que estejam trabalhando com tecnologia para agricultura, e formar uma rede de fortalecimento desses desenvolvimentos, além de membros da comunidade internacional para apoio, troca de experiências e possíveis colaborações.

Estiveram presentes 42 pessoas, de 17 países: Gana, Nigéria, Mali, Senegal, Burkina Faso, Camarões, Tanzânia, Ethiopia, Uganda, Quênia, Austrália, Canadá, Itália, Reino Unido, Estados Unidos, Brasil, e Holanda.

O encontro teve dois focos: pensamentos sobre princípios-guia para o desenvolvimento das tecnologias; e apresentação dos trabalhos que já haviam sido desenvolvidos pelas pessoas presentes - para referência e colaborações.

Os princípios-guia

A partir das primeiras discussões, o grupo redigiu uma lista de 10 princípios pensados para guiar os processos de tomada de decisão acerca das tecnologias desenvolvidas, de acordo com essa teoria, de avaliação por princípios.

Cada princípio consiste de uma afirmação curta, de 2 a 4 palavras, e uma descrição concisa de cerca de 2 linhas. Cada princípio traz também um contra-ponto, que são proposições legítimas, que representam valores e hipóteses distintas das que estamos querendo apoiar com esses princípios.

Dentre a lista, destacamos um que trata da escalabilidade das tecnologias desenvolvidas:

Escalar na velocidade da confiança, ao invés de desenhar com foco na expansão.

Esse princípio foi amplamente discutido, e suscitou questionamentos sobre como estruturar os projetos e ferramentas que desenvolvemos para que sejam utilizadas por outras comunidades. Nesses casos, como essas comunidades podem ter domínio/apropriarem-se dessas ferramentas?, e qual modelo de negócios faz sentido adotar, considerando uma busca genuína por alteração de estruturas de poder?.

São perguntas cujas respostas variam de acordo com o contexto. Elas nos levaram a pensar replicabilidade de tecnologias, o conceito de extrativismo de dados, e as diferentes lógicas e políticas por trás de cada decisão "técnica" que é feita na construção de ferramentas digitais.

Ao fim, pudemos reiterar nossa percepção de que tecnologias comunitárias são artefatos políticos muito antes de serem produtos técnicos.

Participantes e os trabalhos apresentados

Além das atividades de discussão dos princípios e conceitos, o evento contou também com momentos de apresentação de 20 minutos de duração, acerca dos trabalhos realizados pelas pessoas que estavam presentes, seguidos de 10 minutos de perguntas e discussões.
Em todas as apresentações, o tempo de discussão foi muito vivo e rico em reflexões e contribuições aos trabalhos.

Foram apresentadas métodos e tecnologias muito diversos, em diferentes estágios de experimentação e implantação. Os trabalhos foram desde plataformas comunitárias de comercialização (como a desenvolvida pela Liga Campesina do Quênia), até kits de hardware aberto, de baixo custo, para monitoramento ambiental e de solo.

Alguns trabalhos aplicaram modelos de linguagem e inteligência artificial, por exemplo para aconselhamento agrícola (farmer chat) e inclusão digital de linguagens locais, com foco na preservação do conhecimento compartilhado através da oralidade (AI Mali)

Destacamos também a diversidade de contextos representados. Estavam presentes

Quanto à nossa apresentação, compartilhamos a metodologia utilizada na construção do speco, pontuando os critérios políticos para as escolhas das ferramentas, e nossa proposta de soberania tecnológica através da construção de capacidade técnica, com a valorização de saberes diversos, e metodologias artesanais de desenvolvimento.

Os slides que utilizamos estão em inglês, aqui.

Apresentação da Tekoporã no encontro

Conclusão

O encontro se propôs a reunir pessoas que fazemos tecnologias para agroecologia, para que nos conheçamos, e intercambiemos experiências. Além disso, através das atividades, e da tentativa de chegar na lista de princípios, colocou a proposta de pensarmos sobre como estamos fazendo essas tecnologias. Ou seja, um foco no método ao invés de no produto final.

Refletimos sobre como algumas vezes podemos nos distraír, achando que as tecnologias, ou as ferramentas digitais, são as partes mais importantes dos trabalhos. Mas é claro que, para construir um contexto tecnológico que impulsione transformações de dinâmicas de poder, o mais importante devem ser sempre as pessoas e os processos dos quais elas fazem parte.

Considerando o momento em que está a Tekoporã, de implementar o sistema Speco para o fórum de SPGs, essas trocas nos fortalecem, e nos trazem perspectivas de quão potentes são as práticas que se alinham aos valores da agroecologia e do bem viver.